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Por que o Mark Zuckerberg resolveu investir no metaverso?

07 de novembro de 2021 - 16:20

Além das questões de imagem, o Facebook, agora rebatizado de Meta, busca estabelecer uma distribuição vertical, ou seja, dominar o hardware e ser menos dependente de smartphones, área dominada por Apple e Google.

 

Leia em 8 min 
O avatar e o Mark Zuckerberg real durante a apresentação da Meta, novo nome do Facebook

Com o Facebook lançando sua nova marca, a Meta, e se autodenominando uma “metaverse company”, metaverso passou a ser um assunto muito badalado. No Linkedin, por exemplo, tem chovido posts sobre o tema. Basta dizer que o metaverso cria uma experiência muito mais envolvente para os consumidores de mídia social, jogos e outras tecnologias digitais. E, como spoiler, a tecnologia nos leva ao território da ficção científica do filme Matrix.

O termo foi criado há aproximadamente 20 anos, pelo escritor Neal Stephenson no seu livro de ficção científica Snow Crash. Confesso não o li, embora tenha sido eleito, pela revista Time, um dos 100 melhores romances escritos na língua inglesa. O livro foi lançado quando a internet ainda estava engatinhando, no início da década de 1990, e inspirou a criação do “Second Life”.

Para quem se interessar, há um bom histórico do conceito de metaverso no artigo “Metaverses”. Nele, você descobre que o CEO da Microsoft, Satya Nadella, já havia mencionado o metaverso em uma conferência em maio desse ano. A palestra de Nadella não atraiu muita atenção, talvez porque sua descrição do seja um pouco hermética e técnica.

O CEO da Microsoft diz que um “metaverso é feito de gêmeos digitais, ambientes simulados e realidade mista, e está emergindo como uma plataforma de negócios”. “Gêmeos digitais” ou “digital twins” são simulações de coisas reais, mas é um termo que, exceto para quem atua em tecnologia e está antenado, não é bem conhecido.

Na ocasião, Zuckerberg disse que o metaverso vai além da realidade virtual e dos jogos de computador, aos quais é frequentemente associado. Ele descreve o metaverso como “uma internet incorporada, em que, em vez de apenas visualizar o conteúdo, você está nela.”. A entrevista dele, publicada pela The Verge pode ser lida aqui.

A ideia do Facebook de entrar no metaverso não é de agora. Em 2014, o Facebook adquiriu a Oculus VR por US$ 2,3 bilhões. Oculus era uma startup que construiu um visor de realidade virtual direcionado principalmente para jogos digitais.

A estratégia do Facebook (ou melhor Meta) em cima do metaverso tem várias motivações: o desgaste do atual modelo de redes sociais, a perda de usuários mais jovens, que estão usando outras plataformas (preferindo TikTok ao Instagram e a maioria da idade dos usuários do Facebook já se situa acima dos 35 anos) e até mesmo a credibilidade do próprio Facebook.

Além disso, o Facebook atualmente depende de rivais para funcionar, como os smartphones da Apple (que recentemente mudou as regras do jogo e com isso afetou diretamente o modelo de negócios de anúncios personalizados) e do sistema Android, leia-se Google. Segundo o Financial Times, a atualização da Apple para a privacidade do iPhone já custou em 2021, aos gigantes da mídia social, incluindo o Facebook, quase US $ 10 bilhões.

A Apple lançou uma atualização de privacidade em abril que obriga os aplicativos a mostrarem uma janela pop-up aos usuários solicitando consentimento para rastrear suas atividades para fins publicitários. Se os usuários selecionarem a opção “não”, a Apple bloqueia o identificador exclusivo desse usuário para os anunciantes e, com isso, derruba a principal ferramenta que permite aos anunciantes construir perfis de pessoas e direcioná-los com anúncios. Sem essa informação, o anúncio perde muito de sua eficácia. Isso afeta diretamente o modelo de negócios do Facebook.

Em janeiro deste ano, Zuckerberg já havia dito que a Apple se tornara um dos principais competidores do Facebook. Para sair dessa subordinação, com o metaverso, o Facebook busca estabelecer uma distribuição vertical, ou seja, dominar o hardware. Portanto, a empresa está investindo maciçamente em equipamentos. Com o Oculus, o Facebook vê uma maneira de dispensar os dispositivos móveis para conectar diretamente as pessoas. E, com isso, não ficar mais em uma dependência ameaçadora.a

Com o metaverso, o Facebook também quer entrar no mercado corporativo, lugar que hoje não tem presença. A proposta de Zuckerberg é substituir as atuais tecnologias de videoconferência baseadas em 2D, como Zoom, Google Meet e outras. E também sinalizar que continua uma empresa inovadora.

Nos últimos anos, o Facebook não criou nada significativamente inovador. Adotou basicamente as técnicas de copycat para muitos de seus produtos (Stories do Snapchat, Reels do TikTok e IGTV do Youtube são exemplos emblemáticos) ou aquisição direta como a do Oculus, Instagram e WhatsApp.

O metaverso completo, no qual mundos virtuais distintos se aglutinam em um único mundo virtual integrado que, por sua vez, estará integrado ao mundo físico, ainda é muito mais conceito que realidade. Aliás, esse metaverso não está nem perto da realidade. Precisa de muita coisa para evoluir, pois as peças tecnológicas para fazer isso acontecer ainda estão muito incipientes e em estágios diferentes de evolução e adoção.

No metaverso, sua identidade, seus relacionamentos, seu dinheiro serão os mesmos no online e offline. Provavelmente não será um ambiente proprietário de uma única marca, mas um mundo conectado de vários ambientes, como a própria internet. Ou seja, a interoperabilidade do metaverso é a chave para se criar o metaverso.

Isso colide com o modelo de negócios do Facebook, que exige que você fique no metaverso privado dele. Por isso, a estratégia de Zuckerberg de tornar o Facebook o próprio metaverso. Ou, em outras palavras, se o metaverso for nova internet, ela será o próprio Facebook. Absolutamente, não será um futuro agradável.

Sem sombra de dúvidas, é um aspecto muito preocupante das falas de Zuckerbeger: essa ideia do metaverso ser propriedade do Facebook. Um metaverso nessa concepção, controlado por um pequeno número de corporações, pode se tornar um pesadelo distópico. Como vimos no documentário da Netflix, “Social Dilemma”, e mais recentemente na série de reportagens do Wall Street Journal, denominado “Facebook Files”, o Facebook e as outras big techs se preocupam mais com os seus lucros do que com o bem-estar social.

Essas empresas já exercem um enorme poder sobre nós, que cresce à medida que coletam mais dados sobre nós, e, obviamente, o metaverso poderia amplificar em muito esse poder. A jogada é arriscada. Embora de forma muito otimista, o Facebook acredita que em cinco anos será conhecido como “uma empresa metaversa”, essa tecnologia, se pegar, vai tornar o atual modelo de rede social irrelevante. O Facebook será uma empresa metaverso ou não será mais tão relevante quanto hoje.

Teve gente que não gostou da ideia. O artigo “Move over, space. Tech billionaires have a new utopian boondoggle: the ‘metaverse’” é bem crítico e tem lá seus argumentos. Um ponto que ela destaca é “viver em um espaço livre de consequências de sua própria imaginação, separado física e psiquicamente de seus concidadãos, para vagar por aí com avatares, é filosófica e psicologicamente questionável”. Bem, deixo para vocês opinarem.

Para tornar o conceito de metaverso realidade, será necessário resolver não apenas problemas técnicos, mas das relações públicas com a própria sociedade. A interface atual mais envolvente para simulações digitais são os óculos de tecnologia virtual do tipo produzido pela Oculus, que o Facebook comprou em 2014.

Mas algumas big techs estão explorando as chamadas interfaces cérebro-máquina que vão além dos óculos de realidade virtual. Essas interfaces podem diluir ainda mais a fronteira entre nós e nossos dispositivos.

Já vemos muitas pesquisas e experimentações em busca de interfaces muito mais ambiciosas, que funcionam por meio de eletrodos implantados no cérebro ou por sensores (eletrodos) adesivados externamente. Esses dispositivos podem ler nossos sinais mentais e transmiti-los a dispositivos externos, permitindo uma leitura da mente bem precisa e, chegando ao controle imaginado em Matrix e outras ficções científicas distópicas.

O próprio Facebook criou um grupo de pesquisas atuando nesse sentido, como podemos ver no artigo “Facebook is building tech to read your mind. The ethical implications are staggering”. Para acompanhar de perto, vejam o Facebook Reality Labs. Esse blog mostra os avanços obtidos, como no artigo “BCI milestone: New research from UCSF with support from Facebook shows the potential of brain-computer interfaces for restoring speech communication”.

Na prática, o Facebook suspendeu temporariamente suas pesquisas relacionadas com implantes, as substituindo por dispositivos não invasivos. A suspensão foi basicamente pela frustração com os resultados obtidos e a constatação que levará bem mais tempo para conseguirem lançar produtos comercialmente. Mas nada impede que voltem quando as principais dificuldades técnicas forem resolvidas.

Além disso, outras empresas, como a Neuralink de Elon Musk, estão desenvolvendo interfaces implantadas. E, claro, há o impulso das Forças Armadas americanas, que sempre investem pesadamente em tecnologias de ponta, injetando bilhões de dólares. O artigo “How DARPA drives Brain Machine Interface Research” mostra o que já tem sido feito, pelo menos oficialmente!

Meu ponto de vista: talvez o metaverso baseado em implantes cerebrais seja apenas um hype e não se torne realidade. As prováveis implicações éticas, sociais e econômicas terão amplitudes e impactos tão grandes que ainda não temos todas as condições de discuti-las adequadamente.

Mas, dada a imprevisibilidade do mundo, não sei se poderemos descartar totalmente a possibilidade de um futuro metaverso com implantes ou dispositivos vestíveis monitorando nossas atividades cerebrais. A ficção científica tem se mostrado muito mais como antecipação científica.

Quero, portanto, propor aqui uma reflexão: metaverso será mesmo um negócio fantástico? O futuro da internet? Será plausível? Ou é assustador?

Cezar Taurion é VP de Inovação da CiaTécnica Consulting, e Partner/Head de Digital Transformation da Kick Corporate Ventures. Membro do conselho de inovação de diversas empresas e mentor e investidor em startups de IA. É autor de nove livros que abordam assuntos como Transformação Digital, Inovação, Big Data e Tecnologias Emergentes. Professor convidado da Fundação Dom Cabral, PUC-RJ e PUC-RS

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