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Homicídio Digital – Parte 2 : Excludentes de ilicitude

William Douglas *William Douglas é juiz federal, desembargador, professor e escritor
03 de abril de 2021 - 21:30

Recentemente, escrevi sobre homicídio digital e isso gerou alguma discussão. Este segundo texto é para aprofundar essa conversa.

O que critiquei foi a decepção que vem fácil demais e a incapacidade de tolerar o diferente. Por favor,  não confunda isso com aceitar assédio, bullying, perseguição etc. Tomar providências e/ou evitar conviver com pessoas agressivas, belicosas, grosseiras ou intolerantes são direitos que lhe assistem. Eu particularmente tento, diante dessas atitudes, concitar ao diálogo, estimular a tolerância, persuadir em prol da coexistência respeitosa. Por vezes tenho sucesso e até ouço pedido de desculpas. Creio que temos que tentar levar as pessoas a níveis mais altos de conhecimento, mas alguns casos de falta de educação e de civilidade são insuperáveis. Diante deles, o jeito é agir em “legítima defesa” mesmo.

Vamos por partes. Existe uma sequência de passos recomendados para quando se estiver lidando com alguém grosseiro. Primeiro, avaliar bem o cenário. Segundo, exercer as virtudes da paciência e da pacificação. Terceiro, se preciso, aí sim, sair de cena.

1) Avaliar bem. – Antes de entender que o outro está lhe atacando, verifique se não pode ser você que está sensível demais. Estamos em tempos estranhos, estressados, pressionados e tudo o mais. Primeiro tente entender. O texto escrito, por perder o tom da fala, pode enganar. Ademais, nem sempre somos suficientemente hábeis na escrita, ainda mais na cotidiana, sem grandes revisões. Pode ser só um mal-entendido. Ou pode ser excesso de sensibilidade, às vezes o mimimi, às vezes o “floco de neve”, mas também podemos estar somente tendo um dia ruim. Em paralelo, não podemos levar tudo a sério demais, nem a nós, nem o outro. Podemos e devemos “tirar por menos”, perguntar, pedir um esclarecimento, isso resolve muita coisa. Às vezes você se sente ofendido por ser culpado mesmo, noutras porque tem algum trauma ou história pessoal. Muita gente já me disse que me achava arrogante e depois de me conhecer concluiu que o problema era com ela mesma. Outro dia uma pessoa me disse que tinha inveja e ressentimento de mim, mas depois viu que eu era “legal”. Em certas situações as pessoas se ofendem ou se afastam presumindo, deduzindo, imaginando, e perdem a realidade que, pode acontecer, é menos sombria do que nos parece.

Claro que essa avaliação mais cuidadosa, esses filtros todos, podem apenas nos levar à certeza de que estamos diante de um ogro mesmo. Será uma pena, mas pelo menos teremos certeza de que estamos lidando com um problema real e não apenas imaginário. Há ogros e bruxas, você já sabe disso. Se for o caso, vamos para o passo dois.

2) Ter paciência. – Nesse passo, alguns criticam, outros elogiam minha insistência e paciência com alguns boçais e obtusos. No meio dos piores grosseiros pode estar, perdida, alguma pessoa boa, apenas ferida, ou com pouca educação, ou sangrando emocionalmente e pedindo socorro do único jeito que sabe. Acredito que alguns deles podem ser apenas pessoas que não tiveram a sorte de ter um bom pai, mãe, tio ou professor, alguém que não conversou o suficiente com um bom padre ou algum outro ministro religioso, ou com um bom filósofo, ou a quem ainda falte ler um pouco mais. Quem menos merece atenção e amor é quem mais precisa desses medicamentos, e, logo, quem mais os merece. Quem sabe nós não somos o amigo ou tio que faltou? Então, vamos com calma tentar escavar um pouco de bom senso e humanidade mesmo dentro daqueles que nos parecem inatingíveis. Vale tirar a dúvida. Quem sabe?

Tenho uma incorrigível fé na educação e uma imarcescível esperança em que o bem é uma chama acendível dentro do coração e da mente humana. Já fiz a ignição algumas vezes, e isso me conforta pelas outras tantas em que me faltou habilidade para incendiar as tochas certas, acender as lâmpadas e candeias que pudessem conduzir alguém da incivilidade à convivência. Mas vamos tentar! Quem sabe? Claro que em várias ocasiões concluí que eu não tinha as habilidades necessárias para alcançar “o humano dentro da pedra” e desisti da empreitada, desejando internamente que alguém melhor que eu tente e consiga.

Insisto muito, pois sempre acredito que o bem vence o mal. E creio, como Martin Luther King Jr.: “A escuridão não pode expulsar a escuridão, apenas a luz pode fazer isso. O ódio não pode expulsar o ódio, só o amor pode fazer isso”. Vamos tentar um pouco de luz antes de usar o interruptor e sair da sala. Também insisto muito nos outros influenciado por Jesus Cristo, que sempre insiste em mim. Podemos e devemos insistir, mas sem abdicar da avaliação de nossa capacidade emocional e intelectual, assim como de não estarmos “dando murro em ponta de faca” ou “batendo palmas para maluco dançar”.

O passo dois é, em resumo, tentar transformar inimigos em amigos, conciliar, pacificar, chegar a acordos e a denominadores comuns. A Bíblia dá bons conselhos nessa área: “Nunca paguem o mal com o mal. Pensem sempre em fazer o que é melhor aos olhos de todos. No que depender de vocês, vivam em paz com todos. Amados, nunca se vinguem; deixem que a ira de Deus se encarregue disso (…). Não deixem que o mal os vença, mas vençam o mal praticando o bem” (Romanos ‪12:17-21). Em suma, tente!

Não tente para sempre, porém. A mesma Bíblia alerta que algumas pessoas são imunes, e até refratárias, a tentativas de conciliação. Salomão alertou: “Não repreendas ao escarnecedor, para que não te odeie. Repreende ao sábio, e ele te amará” (Provérbios 9:8). É muito complicado definir algumas palavras, mas a recomendação passa pelo seguinte: “Não deem o que é santo aos cães, nem joguem pérolas aos porcos; pois os porcos pisotearão as pérolas, e os cães se voltarão contra vocês e os atacarão” (Mateus 7:6). Entendo que sua paz e sua dignidade humana são coisas sagradas, e sua atenção é uma pérola. Gostaria que não existissem “cães” e “porcos” no sentido figurado usado por Jesus, mas eles existem. Se estiver diante de um deles, lamento, mas vai precisar se proteger… e, assim, chegar ao passo três.

3) Excludentes de ilicitude. – Temos que reconhecer que algumas almas preferem a escuridão. Algumas mentes adentraram tanto em si mesmas, ou foram tão infectadas pela arrogância ou pelo ensino de teorias que excluem a diversidade, que estão inalcançáveis. Apenas alguma tragédia poderá quebrar o muro hermético que desprotege a mente de alguns intelectuais, de alguns militantes e de alguns religiosos.

Logo, o mesmo “tio” que sugere fugir de decepções rápidas e de homicídios virtuais está aqui para referendar o homicídio digital praticado sob o abrigo de uma descriminante. Qualquer delas, aliás. Seja o exercício regular do direito de selecionar companhias, o estado de necessidade de buscar sua paz, ou legítima defesa. Às vezes, a antecipada, tese que criei e que também vale para esse caso aqui. A abdicação do contato ou do debate pode ser no cumprimento do dever legal: autoridades e servidores públicos não devem entrar em qualquer discussão, sendo que às vezes é melhor a porta de saída do que ficar em sala inadequada.

Fernando Pessoa ensina que “existe no silêncio uma tão profunda sabedoria que às vezes ele se transforma na mais perfeita resposta”. Em alguns casos, a solução pode ser silêncio eterno. Vá lá: se a pessoa mostrar que mudou de jeito, a eternidade pode ser cancelada, mas enquanto mantiver o comportamento e a atitude que geraram o afastamento, vamos manter a solução dada.

Enfim, tudo tem limite. É frustrante, mas alguns graus de falta de civilidade não têm jeito: é bloqueio, silêncio e afastamento mesmo. Você perdoa a pessoa, sai da forma mais educada que puder, mas sai. Deseja “paz e bem”, deseja “vida longa e próspera”, e deixa a vida se encarregar daquilo que você não foi capaz. Espero que tenha reparado: sair de cena é uma arte. Você precisa preparar sua alma para sair sem ser grosseiro, sem querer dizer a última frase, sem passar como o mal-educado, sem deixar o “lado negro da Força” seduzir você. Saia como um Jedi, nunca como um Sith.

  1. Quando saber a hora? – Bem, sempre é hora de entender bem a realidade para podermos dar solução para ela e não para nossos traumas,  suposições ou temores. Nunca decida nada sem ter um mínimo de certeza, sem dar a chance de a pessoa explicar melhor o que disse. Pense na ampla defesa, no contraditório e no devido processo legal: eles também servem para o trato pessoal e social, não apenas para os processos judiciais.

Saber a  hora de ter paciência e conciliar, e a hora de desistir e  excluir alguém, isso já é mais difícil. Esses tipos de dificuldade são uma parte indissociável da grande jornada. Mas não se estresse, já vai ajudar bastante você estar consciente desses passos todos e de que, caso a caso, precisará decidir para que lado deve ir. Se errar, perdoe-se, aprenda com o erro, peça desculpas e recomece.

Sempre, para tudo isso que abordo, você pode contar com alguns recursos: pensar antes de agir, “consultar seu travesseiro”, conversar com alguém mais sábio sobre como deve proceder, ler muitos livros, se fortalecer na oração, reflexão e paciência. Tenho certeza de que todos nós acertaremos e erraremos bastante, mas com atenção e boa vontade iremos ficando mais sábios e fazendo as melhores escolhas.

Evite decepções e homicídio digital por qualquer coisa, mas esteja atento. Reflita, converse, pacifique, ajude e, se preciso, elimine quem faz mal a sua alma. Desejo nisso, e em tudo, sucesso e boa sorte!

por William Douglas, juiz federal, desembargador, professor e escritor

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