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No apagão de mão de obra de TI, a disputa predatória por desenvolvedores

16 de agosto de 2021 - 11:03

Os profissionais dessa área estão sendo amplamente disputados pelas empresas, gerando uma competição predatória por talentos, o que inflaciona seus salários e, ao mesmo tempo, aumenta a pressão e a cobrança por resultados e por desempenho

De acordo com um estudo da McKinsey, a adoção digital por consumidores e empresas avançou cinco anos em apenas oito semanas devido à Covid-19. Com isso, a demanda por desenvolvedores “disparou” à medida que organizações de todos os tamanhos estão agora percebendo que as habilidades digitais são essenciais para todas as partes de seus negócios.

Existe hoje um grande risco de colapso nas áreas de tecnologia da informação (TI), principalmente quanto a profissionais de desenvolvimento de aplicações, causado pela falta de mão de obra qualificada. Já não é de hoje que a quantidade de pessoas que se capacitam é menor que o número de vagas abertas no setor de tecnologia no Brasil, mais especificamente nas funções relacionadas com desenvolvimento de sistemas.

Cerca de três anos atrás, o número de vagas em aberto no setor era de 100 mil. E este número chegará perto de 200 mil ainda em 2021. A cada ano esse déficit tem aumentado em cerca de 30 mil a 40 mil vagas. Estima-se que, em 2024, serão cerca de 300 mil vagas em aberto.

A pandemia acelerou drasticamente esse cenário, aumentando a demanda por desenvolvedores, uma vez que forçou a grande maioria das empresas a se adaptarem abrupta e compulsoriamente ao universo digital e ao home office. O Covid-19 foi também empurrão que faltava para que essas empresas iniciassem a já atrasada transformação digital em seus processos e serviços.

Segundo uma pesquisa da Forrester, publicada em 2020, em 65% das organizações, a área de TI não consegue concluir tudo aquilo que é pedido pela área de negócios, por conta da grande demanda de projetos.

Esse ciclo coloca os profissionais da área frente a desafios, responsabilidades e projetos de forma precoce, gerando um grande aumento na expectativa de crescimento profissional. O cenário acaba sendo de desenvolvedores que estão em um patamar júnior de experiência, ganhando como se fossem pleno e imaginando que estão no nível dos sêniores, demonstrando as distorções que vêm acontecendo por conta desse apagão.

Os desenvolvedores, apesar de não terem como requisitos formação acadêmica específica (como é o caso de médicos, engenheiros e outras carreiras), precisam de habilidades e capacidades bem próprias, como a facilidade de acompanhar e desenvolver raciocínios lógicos, alto poder de abstração e conexão de ideias, afinidade com análise de dados e capacidade de compreender e criar processos eficientes, entre outros.

Esses fatores infelizmente são grandes barreiras para a entrada rápida de profissionais no mercado. Afinal, não é na faculdade que desenvolvem essas habilidades, e sim ao longo de sua vida profissional. Além disso, a rápida evolução tecnológica cria um processo de obsolescência profissional muito rápida, que leva a mais um desafio: como sobrecarregado de tarefas, um desenvolvedor consegue acompanhar a evolução tecnológica e se manter atualizado?

Em curto prazo, o apagão de mão de obra nas áreas de TI e inovação não será resolvido. Será necessário conviver com este cenário por alguns anos. Em médio prazo, esse problema será minimizado, com uma maior maturação e adoção mais ampla de novas tecnologias como low-code, automatização de tarefas de programação por sistemas de IA e ampliação da disponibilidade de talentos, seja por cursos formais ou pela crescente oportunidade de cursos online, no modelo self-service.

Por outro lado, o desenvolvedor, por atuar em um mercado que evolui rapidamente, deve ter consciência em relação à sua carreira. É preciso pensar no desenho da sua própria carreira, se o que está fazendo hoje fará sentido para o amanhã. Há profissionais com muitos cursos e formações que não fazem sentido entre si. Diante de tanta coisa nova acontecendo, o profissional acaba perdendo o foco.

Por isso, alguns pontos de atenção devem ser considerados:

1. A tecnologia evolui numa velocidade mais rápida do que as pessoas conseguem se capacitar. O profissional de tecnologia deve aprender o tempo todo e os mais preparados para atender as necessidades das empresas serão os mais requisitados. É muito fácil ficar ultrapassado, por isso a habilidade de autogerenciamento é tão importante para o profissional de tecnologia que quer se manter competitivo.

2. O domínio do idioma estrangeiro continua sendo uma das maiores dificuldades de acesso a tecnologias de fora. O profissional deve ter foco no inglês para estar sempre alinhado com o que há de mais novo em sua área. Quem não dominar inglês vai perder muitas oportunidades para atuar em outros países.

3. É preciso aprender a trabalhar em Squads (modelos ágeis de equipes multidisciplinares que atuam por projeto), fazendo contribuições em outras áreas e também dando abertura para receber feedback.

4. A qualificação técnica não é tudo. Além do conhecimento, as empresas procuram desenvolvedores com capacidade de comunicação, relacionamento interpessoal e habilidades comerciais.

Os desenvolvedores são frequentemente julgados e avaliados em sua proficiência com certas linguagens de programação e estruturas, mas é importante lembrar que essas são habilidades transferíveis.

Uma pesquisa global com milhares de desenvolvedores questionou com que frequência eles aprendem uma nova linguagem e cerca de 75% dos entrevistados afirmaram que aprendem uma nova tecnologia pelo menos uma vez por ano.

Linguagens e estruturas são muito semelhantes. Então, as diferenças entre as linguagens de programação são muito menores do que a palavra falada. Mudar de PHP para Python não é como aprender inglês, francês ou alemão. Por isso, a facilidade de aprendizado de novas linguagens.

Existem, entretanto, habilidades e estruturas que estão em alta demanda no momento e que serão mais valiosas nos currículos do que algo onipresente ou já commoditizado como Javascript ou C++.

Rust e Dart são linguagens de programação que rapidamente ganharam popularidade entre os desenvolvedores, liderando a lista de linguagens de programação de rápido crescimento no GitHub entre 2018 e 2019.

Da mesma forma, a própria linguagem de programação Go do Google está crescendo em popularidade. Ainda assim, Java e Javascript podem ser as linguagens de programação mais rentáveis para aprender quando se está apenas começando.

Depois, há o Python, que cresceu rapidamente no ranking das habilidades demandadas na última década. Esta linguagem de programação, que é popular entre os cientistas de dados, é agora a terceira habilidade mais solicitada de acordo com milhões de ofertas de emprego nos EUA.

Com foco no back-end, há uma direção clara do ponto de vista das habilidades: contêineres e fluência nos conceitos de nuvem. As habilidades gerais de computação em nuvem tendem a se alinhar com as tecnologias dos fornecedores principais, como Amazon Web Services (AWS), Microsoft Azure e Google Cloud Platform.

As empresas tendem a contratar com base nesses conjuntos de habilidades específicas para que os desenvolvedores possam ser integrados mais rapidamente às equipes já existentes.

Reter esses profissionais também é outro desafio. Além de competir com outras empresas nacionais por esses especialistas, há também a competição internacional pelos profissionais que se destacam. Geralmente, os grandes talentos são levados para o exterior para trabalhar em corporações que lhes pareçam mais atrativas.

Recentemente publiquei um estudo mais aprofundado sobre o tema, “Mercado de desenvolvedores de sistemas: passado, presente e futuro”, para incrementarmos o debate sobre como minimizar e/ou mitigar esse cenário de escassez de talentos. Em uma sociedade cada vez mais digital, ter profissionais capacitados, em volume adequado às demandas do país torna-se um imperativo estratégico.

Cezar Taurion é VP de Inovação da CiaTécnica Consulting, e Partner/Head de Digital Transformation da Kick Corporate Ventures. Membro do conselho de inovação de diversas empresas e mentor e investidor em startups de IA. É autor de nove livros que abordam assuntos como Transformação Digital, Inovação, Big Data e Tecnologias Emergentes. Professor convidado da Fundação Dom Cabral, PUC-RJ e PUC-RS.

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